terça-feira, 28 de maio de 2013


Sóror Miranda apercebeu-se de uma conjuntura. Ou de um conflito entre duas regiões, quando tentava encaixar na prateleira dos livros o livro obscuro. A prateleira enchendo-se de plantas (que pendiam da prateleira de cima), e cheia, também, de pequenas molduras, objectos quase kitsch. O problema não era o kitsch, eram as plantas da casa: as orquídeas, as dracenas, as begónias e, meu deus, as violetas.
Fulminada, pensou quem sou eu afinal? O assombro arrumado na estante cercada de factos botânicos. Para não falar dos cortinados. O assombro metido numa casa, coexistindo com ela, com os objectos e as coisas vivas – e Sóror Miranda nem se lembrava de ter comprado os cortinados, de ter plantado as plantas, etc. etc. etc.
Havia, por isso, que resolver um conflito de interesses: a casa ou o livro?
Sóror Miranda pensou eu escolho a vida.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Há dias produtivos para Sóror Miranda em termos de compreensão. Dias em que os pensamentos se cristalizam em formas concretas.
Sóror Miranda teve num desses dias um pensamento: a compartimentação dos dias pode servir um propósito no âmbito da loucura. Impedir certas regiões de extravasarem para regiões estrangeiras, se entendermos que a inquietação é uma região estrangeira em relação à serenidade.
E foi desse modo que Sóror Miranda concluiu que era necessário repensar o ordenamento do território.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Esta quase monástica forma de estar, pensou Sóror Miranda, não é intencional. Quero eu dizer: é por as coisas serem como são, é por haver uma profunda não conformidade entre isto e aquilo… E eu equilibro os pratos da balança. Tiro subtilmente daqui, ponho subtilmente ali…
Por vezes, o ruído interior era tão ensurdecedoramente previsível, que Sóror Miranda se refugiava na pastelaria para absorver ruído alheio. Gloriosamente sentada na pequena mesa em frente da janela, ouvia todas as conversas que conseguia.
Ouvia tudo. Até chegar a um ponto de aturdimento – e poder efectivamente dizer que se equilibravam os pratos da balança, pois aquilo que punha de exterior igualava em peso e em absurdo o que havia no interior – e até todas as palavras serem incompreensíveis e se confundirem com o imparável tilintar da louça, e ser impossível a sua permanência naquele lugar em modo de compostura.
Saindo da pastelaria, Sóror Miranda punha-se a andar a passos largos.

quarta-feira, 22 de maio de 2013


A tia Anita debruçou-se sobre o ombro de Sóror Miranda num final de tarde em que esta, por sua vez, se debruçava sobre um caderno, escrevendo em letra miúda.
E disse:
- Escrever é uma afecção do espírito. Se a menina quer escrever, então escreva cartas. Em papel avulso.
E sobre o seu caderno dispôs com brusca “afecção” o tabuleiro do chá.
Sóror Miranda passou desde então a escrever em papel avulso.


terça-feira, 21 de maio de 2013


Sóror Miranda exaspera por não dar uma forma à vida. Por tudo ser uma mancha de cor difusa a cobrir um desenho em tinta-da-china. As cores não deram forma ao traço, mudaram-no, encobriram-no: e Sóror Miranda tinha a ambição de fazer desse traço uma forma acabada e clara e inabalável e em si suficiente.
Foram os cabrões dos vindouros, murmurou, constatando, entre a surpresa e a resignação: mais uma frase vinda de fora do meu corpo.
- Nunca a cor pode tocar o traço escuro.
E Sóror Miranda teve o cuidado de qualificar de “pós-moderno” as cartas, e não o amor – em inglês, seria impossível fugir à ambiguidade sem recorrer a métodos explicativos.
Se tocasse numa orquestra, Sóror Miranda tocaria clarinete, não o bongo. Tomara essa resolução hipotética numa dessas tardes pardacentas em que havia que decidir o futuro. O futuro, haviam-lhe dito, embora não exactamente deste modo, é uma entidade que projectamos na forma exterior e visível, nos contornos.
- É a expressão da completude prática? – perguntou.
- Peço desculpa, não entendi a pergunta – responderam-lhe.
Pelo que, sobre uma ideia que devia representar a consolidação do concreto, pairou desde então – ou desde sempre – a incerteza.
Entre algumas tentativas falhadas de cartas de amor pós-modernas que só não são devolvidas porque o correio é electrónico e o carteiro é tirano e não permite esquecimentos nem distância nem erros nem acidentes - nunca permite a não entrega das cartas. O destinatário nunca vai perceber a dimensão da correspondência nem os gritos que ela esconde, mas isso também é sintoma dos tempos modernos e não é mau nem bom é como tem de ser ou é como é ou - como é frequente as irmãs dizerem - é porque não tinha de ser. Sóror Miranda desacredita-se e investe no jogo da desacreditação. Para a frente e para trás. Dois passos para a frente e quatro para trás. Como o enigma da preguiça e o complexo Adiliano do Aquiles e da Tartaruga. Sóror Miranda morrerá sozinha - provavelmente vitima de atropelamento ou de esquecimento nas vias públicas das esferas do privado. Isso é certo. Três ou quatro amigos longínquos chorarão a sua morte nessa manhã pardacenta, em cemitério incerto.

Sóror sofre

Sóror Miranda pratica a auto-comiseração, nos tempos livres em que se dedica à quiche.
Sóror Miranda é como uma flor a murchar, murchar, por não ver a luz do dia. Cada dia mais encurvada. Porque o sol não bate em todos os lados ao mesmo tempo, meus senhores. Que o mesmo é dizer que o sol só brilha para os outros. E Sóror Miranda, como um pedaço de metal escuro à sombra, come quiches enquanto aguarda reuniões.