quarta-feira, 26 de junho de 2013


Sóror Miranda pôs-se a tentar compreender o aparelho psíquico. Decompôs-se esquematicamente em três dimensões: colocou duas em conflito e fez da outra o palco dessa guerra, uma síntese dinâmica. O resultado foi catastrófico e não apresentava qualquer tipo de relação com a sua forma efectiva, real. Eu não sou um palco de guerra, disse (levemente ultrajada). Pôs inclusivamente um colar ao pescoço e alisou com a escova a suave ondulação do cabelo. Mas, apesar deste gesto, ficou a olhar para dentro (com o “olho da mente”). E percebeu que o problema não estava no conflito, porque não o havia, mas na total falta de comunicação entre uma e outra. Transpostas para o palco, essas duas entidades paralelas e independentes não eram senão duas realidades fragmentárias e incomunicantes - e tudo, no fundo, funciona em comunicação com outra coisa: o coração é um órgão comunicante, o cérebro também. Na verdade, todos os órgãos são comunicantes, e decerto advirá dessa circunstância o adjectivo “orgânico”.
Oh, a facilidade de recorrer a um sistema que conduza à compreensão do mundo (e que, iluminando, oriente também as acções)...
Chegando a este impasse, houve então que proceder à desconstrução. Voltou ao início: um aparelho não é orgânico. Na verdade, é quase a sua antítese, pois, embora possuindo as mesmas funções que um organismo (as de funcionar e pôr a funcionar), é de natureza mecânica. E eu não sou uma máquina.
Já está.
Dito isto, empenhou-se na arrumação meticulosa das meias.
Sóror Miranda ouvia Chet Baker sempre que lhe parecia necessário, ou pelo menos vantajoso, convencer-se de que tudo estava bem. Naquele dia, porém, sem trompete nem uma canção rock que espelhasse a sua graça, detinha-se em pensamentos. Terá havido um momento em que errou: bastou uma falha na sequência dos acontecimentos, e as peças de dominó começaram o seu atropelo. A partir desse momento, fosse ele qual fosse, terá deixado de ter domínio – foi como se cedesse a propriedade da sua vida, digamos, a uma roldana. Evidentemente, nunca poderia dizer que levava uma vida pacata: diria antes “a vida leva-me”, pacata ou não pacatamente ("circularmente" seria mais ajustado).
Percebia agora isto: sentia-se eternamente como quando, na infância, recuperava os sentidos à beira-mar, depois da revolta das ondas. Os olhos turvos do sal e o nariz inundado: era esse, talqualmente, o seu sentimento existencial. Era um problema, portanto.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Uma música fez-se então ouvir por entre a janela entreaberta. Era uma canção rock, longínqua e entrecortada. Dizia assim:


Sóror Miranda quer fugir 

por não ter uma banda.

Por não saber gerir

a vida que não anda.


- Estou imóvel como a pedra da calçada:

vejo tudo, não faço nada.

Quero um tear, não tenho um tear

para poder fiar. Tenho de o ir buscar

ao país vizinho

ou a outro mais distante.

Longe, longe, onde só beba vinho

e onde o pensamento

não se organize em torno do tormento.

E longe, onde não prevaleça

o “enveredou-pela-via-comercial”

nem nada que se pareça.



Sóror Miranda constrói um altar

para a Nossa Senhora da Agonia

prometendo preces e muito louvar.

- Há-de me ajudar. Há-de ser o meu guia.

Entre púcaros e mantas

monto um batalhão de santas.

  

Sóror Miranda, anda daí, anda

Sóror Miranda, anda daí, anda

Sóror Miranda, anda daí, anda 



Foi o que lhe pareceu ouvir...


 

quinta-feira, 6 de junho de 2013


Pôs de parte todas as considerações não pertinentes. Precisava de um plano, simples e ágil. Precisava que dele nascesse um resultado concreto, uma solução pragmática para a vida: em poucas palavras - ou para começar - talvez lhe fosse vital um novo posto de trabalho. Um trabalho que correspondesse às suas perspectivas e às suas particularidades.

Em suma, Sóror Miranda não podia. E pensou que talvez houvesse nela, também, uma certa confusão lógica - o que talvez se devesse ao uso imponderado dos advérbios.

quarta-feira, 5 de junho de 2013


Talvez houvesse que esquecer, como quem não quer a coisa, o conflito que levara à decisão, e ater-se à expressão mais directa dessa escolha. A vida, escolhera a vida. Deixando por definir se nela se incluía ou não "o livro". Era, portanto, o mesmo que dizer "por agora escolho a begónia, mais tarde verei se consigo encarar o livro". Eis a simplificação de todos os problemas. Quanta lucidez.
Sóror Miranda foi buscar o regador.

Sóror Miranda tomara uma decisão. Um pouco grosseiramente, como quem no último instante se arrepende da soberba de ter desprezado alguma coisa e pretende afinal recuperá-la. Era, em todo o caso, uma decisão, pelo que havia que agir em conformidade.
Escolher a vida é uma acção, no geral, bela. Porém, nos corredores da casa, lembrou-se de que não definira as condições da sua decisão: não definira “a vida”. Lamentou por isso a eterna complicação de todos os processos decisórios. E de todos os processos de um modo geral.
E de tudo de um modo geral.