sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Esta arte de articular a métrica da marcha com o pensamento, pensou. Mas não acabou a frase: os seus olhos detiveram-se nos olhos condolentes de uma virgem de cores garridas sobre um velho televisor a preto e branco. Era, a julgar pelo manto e pelas cores, a virgem de Guadalupe (uma imagem). Sóror Miranda sentiu-se numa encruzilhada. Entraria? Se entrasse, teria de levar a virgem.
Retomou confusamente a marcha e só no final de várias ruas, ao avistar novamente a janela onde se debruçavam uma velha de cabelo branco-rosa e um cão pequeno de nariz achatado, se apercebeu de que não estava a avançar: fizera o caminho inverso. Parou, sentiu sobre ela o olhar da velha e do cão. Sóror Miranda não vacilaria: seguiu em frente. Dobrou à direita e tentou voltar ao mesmo ponto fazendo outro caminho – não à montra da virgem, onde, de qualquer modo, se decidisse entrar, só poderia voltar mais tarde, mas ao ponto onde estaria se não tivesse invertido o sentido. Atravessou várias ruas, atentou em vários cartazes publicitários. Ao fim de um bom bocado, resolveu assumir que se perdera. Na sua própria cidade. Atrás de si, um cartaz com uma mulher de sorriso fresco e uma flor no cabelo dizia «Já pensou em si hoje?» Vagamente, respondeu Sóror Miranda. Na verdade, o deambular não era senão uma tentativa de evitar isso mesmo – e começava a alcançar um estado de cansaço físico em que, de facto, a mente se alheava, como se saindo de si.
 
Dirigiu-se a uma paragem de autocarro, onde leu: Travessa da Espera. Muito bem, esperaria. Primeiro pelo autocarro, depois por uma solução.

Dobrou e arrumou todas as meias. Envernizou o chão da casa.
- Chama-se a isto viver: agir, preencher o espaço com movimentos, ser um elemento pulsante (audível, sensível). Sou uma vida incandescente - pensou Sóror Miranda abrindo as janelas da sala. -  O vento ateia o fogo. - Pegou subitamente na mala. - Chega de palavras, chega de palavras, chega de palavras. - Tinha saído impulsivamente de casa (as chaves na mala como se por milagre: não havia margem para enganos). - Já chega.
Sóror Miranda percorreu a cidade movendo-se na síncope do pensamento: era uma máquina de precisão. Mais: em breve adquiriria a capacidade de se confundir com a rua, andando até o pensamento se diluir no vento.

quarta-feira, 26 de junho de 2013


Sóror Miranda pôs-se a tentar compreender o aparelho psíquico. Decompôs-se esquematicamente em três dimensões: colocou duas em conflito e fez da outra o palco dessa guerra, uma síntese dinâmica. O resultado foi catastrófico e não apresentava qualquer tipo de relação com a sua forma efectiva, real. Eu não sou um palco de guerra, disse (levemente ultrajada). Pôs inclusivamente um colar ao pescoço e alisou com a escova a suave ondulação do cabelo. Mas, apesar deste gesto, ficou a olhar para dentro (com o “olho da mente”). E percebeu que o problema não estava no conflito, porque não o havia, mas na total falta de comunicação entre uma e outra. Transpostas para o palco, essas duas entidades paralelas e independentes não eram senão duas realidades fragmentárias e incomunicantes - e tudo, no fundo, funciona em comunicação com outra coisa: o coração é um órgão comunicante, o cérebro também. Na verdade, todos os órgãos são comunicantes, e decerto advirá dessa circunstância o adjectivo “orgânico”.
Oh, a facilidade de recorrer a um sistema que conduza à compreensão do mundo (e que, iluminando, oriente também as acções)...
Chegando a este impasse, houve então que proceder à desconstrução. Voltou ao início: um aparelho não é orgânico. Na verdade, é quase a sua antítese, pois, embora possuindo as mesmas funções que um organismo (as de funcionar e pôr a funcionar), é de natureza mecânica. E eu não sou uma máquina.
Já está.
Dito isto, empenhou-se na arrumação meticulosa das meias.
Sóror Miranda ouvia Chet Baker sempre que lhe parecia necessário, ou pelo menos vantajoso, convencer-se de que tudo estava bem. Naquele dia, porém, sem trompete nem uma canção rock que espelhasse a sua graça, detinha-se em pensamentos. Terá havido um momento em que errou: bastou uma falha na sequência dos acontecimentos, e as peças de dominó começaram o seu atropelo. A partir desse momento, fosse ele qual fosse, terá deixado de ter domínio – foi como se cedesse a propriedade da sua vida, digamos, a uma roldana. Evidentemente, nunca poderia dizer que levava uma vida pacata: diria antes “a vida leva-me”, pacata ou não pacatamente ("circularmente" seria mais ajustado).
Percebia agora isto: sentia-se eternamente como quando, na infância, recuperava os sentidos à beira-mar, depois da revolta das ondas. Os olhos turvos do sal e o nariz inundado: era esse, talqualmente, o seu sentimento existencial. Era um problema, portanto.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Uma música fez-se então ouvir por entre a janela entreaberta. Era uma canção rock, longínqua e entrecortada. Dizia assim:


Sóror Miranda quer fugir 

por não ter uma banda.

Por não saber gerir

a vida que não anda.


- Estou imóvel como a pedra da calçada:

vejo tudo, não faço nada.

Quero um tear, não tenho um tear

para poder fiar. Tenho de o ir buscar

ao país vizinho

ou a outro mais distante.

Longe, longe, onde só beba vinho

e onde o pensamento

não se organize em torno do tormento.

E longe, onde não prevaleça

o “enveredou-pela-via-comercial”

nem nada que se pareça.



Sóror Miranda constrói um altar

para a Nossa Senhora da Agonia

prometendo preces e muito louvar.

- Há-de me ajudar. Há-de ser o meu guia.

Entre púcaros e mantas

monto um batalhão de santas.

  

Sóror Miranda, anda daí, anda

Sóror Miranda, anda daí, anda

Sóror Miranda, anda daí, anda 



Foi o que lhe pareceu ouvir...


 

quinta-feira, 6 de junho de 2013


Pôs de parte todas as considerações não pertinentes. Precisava de um plano, simples e ágil. Precisava que dele nascesse um resultado concreto, uma solução pragmática para a vida: em poucas palavras - ou para começar - talvez lhe fosse vital um novo posto de trabalho. Um trabalho que correspondesse às suas perspectivas e às suas particularidades.

Em suma, Sóror Miranda não podia. E pensou que talvez houvesse nela, também, uma certa confusão lógica - o que talvez se devesse ao uso imponderado dos advérbios.

quarta-feira, 5 de junho de 2013


Talvez houvesse que esquecer, como quem não quer a coisa, o conflito que levara à decisão, e ater-se à expressão mais directa dessa escolha. A vida, escolhera a vida. Deixando por definir se nela se incluía ou não "o livro". Era, portanto, o mesmo que dizer "por agora escolho a begónia, mais tarde verei se consigo encarar o livro". Eis a simplificação de todos os problemas. Quanta lucidez.
Sóror Miranda foi buscar o regador.

Sóror Miranda tomara uma decisão. Um pouco grosseiramente, como quem no último instante se arrepende da soberba de ter desprezado alguma coisa e pretende afinal recuperá-la. Era, em todo o caso, uma decisão, pelo que havia que agir em conformidade.
Escolher a vida é uma acção, no geral, bela. Porém, nos corredores da casa, lembrou-se de que não definira as condições da sua decisão: não definira “a vida”. Lamentou por isso a eterna complicação de todos os processos decisórios. E de todos os processos de um modo geral.
E de tudo de um modo geral.

terça-feira, 28 de maio de 2013


Sóror Miranda apercebeu-se de uma conjuntura. Ou de um conflito entre duas regiões, quando tentava encaixar na prateleira dos livros o livro obscuro. A prateleira enchendo-se de plantas (que pendiam da prateleira de cima), e cheia, também, de pequenas molduras, objectos quase kitsch. O problema não era o kitsch, eram as plantas da casa: as orquídeas, as dracenas, as begónias e, meu deus, as violetas.
Fulminada, pensou quem sou eu afinal? O assombro arrumado na estante cercada de factos botânicos. Para não falar dos cortinados. O assombro metido numa casa, coexistindo com ela, com os objectos e as coisas vivas – e Sóror Miranda nem se lembrava de ter comprado os cortinados, de ter plantado as plantas, etc. etc. etc.
Havia, por isso, que resolver um conflito de interesses: a casa ou o livro?
Sóror Miranda pensou eu escolho a vida.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Há dias produtivos para Sóror Miranda em termos de compreensão. Dias em que os pensamentos se cristalizam em formas concretas.
Sóror Miranda teve num desses dias um pensamento: a compartimentação dos dias pode servir um propósito no âmbito da loucura. Impedir certas regiões de extravasarem para regiões estrangeiras, se entendermos que a inquietação é uma região estrangeira em relação à serenidade.
E foi desse modo que Sóror Miranda concluiu que era necessário repensar o ordenamento do território.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Esta quase monástica forma de estar, pensou Sóror Miranda, não é intencional. Quero eu dizer: é por as coisas serem como são, é por haver uma profunda não conformidade entre isto e aquilo… E eu equilibro os pratos da balança. Tiro subtilmente daqui, ponho subtilmente ali…
Por vezes, o ruído interior era tão ensurdecedoramente previsível, que Sóror Miranda se refugiava na pastelaria para absorver ruído alheio. Gloriosamente sentada na pequena mesa em frente da janela, ouvia todas as conversas que conseguia.
Ouvia tudo. Até chegar a um ponto de aturdimento – e poder efectivamente dizer que se equilibravam os pratos da balança, pois aquilo que punha de exterior igualava em peso e em absurdo o que havia no interior – e até todas as palavras serem incompreensíveis e se confundirem com o imparável tilintar da louça, e ser impossível a sua permanência naquele lugar em modo de compostura.
Saindo da pastelaria, Sóror Miranda punha-se a andar a passos largos.

quarta-feira, 22 de maio de 2013


A tia Anita debruçou-se sobre o ombro de Sóror Miranda num final de tarde em que esta, por sua vez, se debruçava sobre um caderno, escrevendo em letra miúda.
E disse:
- Escrever é uma afecção do espírito. Se a menina quer escrever, então escreva cartas. Em papel avulso.
E sobre o seu caderno dispôs com brusca “afecção” o tabuleiro do chá.
Sóror Miranda passou desde então a escrever em papel avulso.


terça-feira, 21 de maio de 2013


Sóror Miranda exaspera por não dar uma forma à vida. Por tudo ser uma mancha de cor difusa a cobrir um desenho em tinta-da-china. As cores não deram forma ao traço, mudaram-no, encobriram-no: e Sóror Miranda tinha a ambição de fazer desse traço uma forma acabada e clara e inabalável e em si suficiente.
Foram os cabrões dos vindouros, murmurou, constatando, entre a surpresa e a resignação: mais uma frase vinda de fora do meu corpo.
- Nunca a cor pode tocar o traço escuro.
E Sóror Miranda teve o cuidado de qualificar de “pós-moderno” as cartas, e não o amor – em inglês, seria impossível fugir à ambiguidade sem recorrer a métodos explicativos.
Se tocasse numa orquestra, Sóror Miranda tocaria clarinete, não o bongo. Tomara essa resolução hipotética numa dessas tardes pardacentas em que havia que decidir o futuro. O futuro, haviam-lhe dito, embora não exactamente deste modo, é uma entidade que projectamos na forma exterior e visível, nos contornos.
- É a expressão da completude prática? – perguntou.
- Peço desculpa, não entendi a pergunta – responderam-lhe.
Pelo que, sobre uma ideia que devia representar a consolidação do concreto, pairou desde então – ou desde sempre – a incerteza.
Entre algumas tentativas falhadas de cartas de amor pós-modernas que só não são devolvidas porque o correio é electrónico e o carteiro é tirano e não permite esquecimentos nem distância nem erros nem acidentes - nunca permite a não entrega das cartas. O destinatário nunca vai perceber a dimensão da correspondência nem os gritos que ela esconde, mas isso também é sintoma dos tempos modernos e não é mau nem bom é como tem de ser ou é como é ou - como é frequente as irmãs dizerem - é porque não tinha de ser. Sóror Miranda desacredita-se e investe no jogo da desacreditação. Para a frente e para trás. Dois passos para a frente e quatro para trás. Como o enigma da preguiça e o complexo Adiliano do Aquiles e da Tartaruga. Sóror Miranda morrerá sozinha - provavelmente vitima de atropelamento ou de esquecimento nas vias públicas das esferas do privado. Isso é certo. Três ou quatro amigos longínquos chorarão a sua morte nessa manhã pardacenta, em cemitério incerto.

Sóror sofre

Sóror Miranda pratica a auto-comiseração, nos tempos livres em que se dedica à quiche.
Sóror Miranda é como uma flor a murchar, murchar, por não ver a luz do dia. Cada dia mais encurvada. Porque o sol não bate em todos os lados ao mesmo tempo, meus senhores. Que o mesmo é dizer que o sol só brilha para os outros. E Sóror Miranda, como um pedaço de metal escuro à sombra, come quiches enquanto aguarda reuniões.