Esta arte de articular a métrica da marcha com o pensamento, pensou. Mas não acabou a frase: os seus olhos detiveram-se nos olhos condolentes de uma virgem de cores garridas sobre um velho televisor a preto e branco. Era, a julgar pelo manto e pelas cores, a virgem de Guadalupe (uma imagem). Sóror Miranda sentiu-se numa encruzilhada. Entraria? Se entrasse, teria de levar a virgem.
Retomou confusamente a marcha e só no final de várias ruas, ao avistar novamente a janela onde se debruçavam uma velha de cabelo branco-rosa e um cão pequeno de nariz achatado, se apercebeu de que não estava a avançar: fizera o caminho inverso. Parou, sentiu sobre ela o olhar da velha e do cão. Sóror Miranda não vacilaria: seguiu em frente. Dobrou à direita e tentou voltar ao mesmo ponto fazendo outro caminho – não à montra da virgem, onde, de qualquer modo, se decidisse entrar, só poderia voltar mais tarde, mas ao ponto onde estaria se não tivesse invertido o sentido. Atravessou várias ruas, atentou em vários cartazes publicitários. Ao fim de um bom bocado, resolveu assumir que se perdera. Na sua própria cidade. Atrás de si, um cartaz com uma mulher de sorriso fresco e uma flor no cabelo dizia «Já pensou em si hoje?» Vagamente, respondeu Sóror Miranda. Na verdade, o deambular não era senão uma tentativa de evitar isso mesmo – e começava a alcançar um estado de cansaço físico em que, de facto, a mente se alheava, como se saindo de si.
Dirigiu-se a uma paragem de autocarro, onde leu: Travessa da Espera. Muito bem, esperaria. Primeiro pelo autocarro, depois por uma solução.
Sabes perfeitamente que eu tive um esgotamento
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Dobrou e arrumou todas as meias. Envernizou o chão da casa.
- Chama-se a isto viver: agir, preencher o espaço com movimentos, ser um elemento pulsante (audível, sensível). Sou uma vida incandescente - pensou Sóror Miranda abrindo as janelas da sala. - O vento ateia o fogo. - Pegou subitamente na mala. - Chega de palavras, chega de palavras, chega de palavras. - Tinha saído impulsivamente de casa (as chaves na mala como se por milagre: não havia margem para enganos). - Já chega.
Sóror Miranda percorreu a cidade movendo-se na síncope do pensamento: era uma máquina de precisão. Mais: em breve adquiriria a capacidade de se confundir com a rua, andando até o pensamento se diluir no vento.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Sóror Miranda pôs-se a tentar compreender
o aparelho psíquico. Decompôs-se esquematicamente em três dimensões: colocou
duas em conflito e fez da outra o palco dessa guerra, uma síntese dinâmica. O
resultado foi catastrófico e não apresentava qualquer tipo de relação com a sua
forma efectiva, real. Eu não sou um palco de guerra, disse (levemente ultrajada).
Pôs inclusivamente um colar ao pescoço e alisou com a escova a suave ondulação
do cabelo. Mas, apesar deste gesto, ficou a
olhar para dentro (com o “olho da mente”). E percebeu que o problema não estava
no conflito, porque não o havia, mas na total falta de comunicação entre uma e
outra. Transpostas para o palco, essas duas entidades paralelas e independentes
não eram senão duas realidades fragmentárias e incomunicantes - e tudo, no
fundo, funciona em comunicação com outra coisa: o coração é um órgão
comunicante, o cérebro também. Na verdade, todos os órgãos são comunicantes, e
decerto advirá dessa circunstância o adjectivo “orgânico”.
Oh, a facilidade de recorrer a um sistema que conduza à
compreensão do mundo (e que, iluminando, oriente também as acções)... Chegando a este impasse, houve então que proceder à desconstrução. Voltou ao início: um aparelho não é orgânico. Na verdade, é quase a sua antítese, pois, embora possuindo as mesmas funções que um organismo (as de funcionar e pôr a funcionar), é de natureza mecânica. E eu não sou uma máquina.
Já está.
Dito isto, empenhou-se na arrumação meticulosa das meias.
Sóror Miranda ouvia Chet Baker sempre que lhe parecia
necessário, ou pelo menos vantajoso, convencer-se de que tudo estava bem. Naquele
dia, porém, sem trompete nem uma canção rock
que espelhasse a sua graça, detinha-se em pensamentos. Terá havido um
momento em que errou: bastou uma falha na sequência dos acontecimentos, e as
peças de dominó começaram o seu atropelo. A partir desse momento, fosse ele qual fosse,
terá deixado de ter domínio – foi como se cedesse a propriedade da sua vida, digamos,
a uma roldana. Evidentemente, nunca poderia dizer que levava uma vida pacata: diria antes “a vida
leva-me”, pacata ou não pacatamente ("circularmente" seria mais ajustado).
Percebia agora isto: sentia-se eternamente como quando, na infância, recuperava
os sentidos à beira-mar, depois da revolta das ondas. Os olhos turvos do sal e
o nariz inundado: era esse, talqualmente, o seu sentimento existencial.
Era um problema, portanto.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Uma música fez-se então ouvir por entre a janela entreaberta. Era uma canção rock, longínqua e entrecortada. Dizia assim:
Sóror Miranda quer fugir
por não ter uma banda.
Por não saber gerir
a vida que não anda.
- Estou imóvel como a pedra da calçada:
vejo tudo, não faço nada.
Quero um tear, não tenho um tear
para poder fiar. Tenho de o ir buscar
ao país vizinho
ou a outro mais distante.
Longe, longe, onde só beba vinho
e onde o pensamento
não se organize em torno do tormento.
E longe, onde não prevaleça
o “enveredou-pela-via-comercial”
nem nada que se pareça.
Sóror Miranda constrói um altar
para a Nossa Senhora da Agonia
prometendo preces e muito louvar.
- Há-de me ajudar. Há-de ser o meu guia.
Entre púcaros e mantas
monto um batalhão de santas.
Sóror Miranda, anda daí, anda
Sóror Miranda, anda daí, anda
Sóror Miranda, anda daí, anda
Foi o que lhe pareceu ouvir...
Sóror Miranda quer fugir
por não ter uma banda.
Por não saber gerir
a vida que não anda.
- Estou imóvel como a pedra da calçada:
vejo tudo, não faço nada.
Quero um tear, não tenho um tear
para poder fiar. Tenho de o ir buscar
ao país vizinho
ou a outro mais distante.
Longe, longe, onde só beba vinho
e onde o pensamento
não se organize em torno do tormento.
E longe, onde não prevaleça
o “enveredou-pela-via-comercial”
nem nada que se pareça.
Sóror Miranda constrói um altar
para a Nossa Senhora da Agonia
prometendo preces e muito louvar.
- Há-de me ajudar. Há-de ser o meu guia.
Entre púcaros e mantas
monto um batalhão de santas.
Sóror Miranda, anda daí, anda
Sóror Miranda, anda daí, anda
Sóror Miranda, anda daí, anda
Foi o que lhe pareceu ouvir...
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Pôs de parte todas as considerações não
pertinentes. Precisava de um plano, simples e ágil. Precisava que dele nascesse um resultado concreto, uma solução pragmática para a vida: em poucas palavras - ou para começar - talvez lhe fosse vital um
novo posto de trabalho. Um trabalho que
correspondesse às suas perspectivas e às suas particularidades.
Em suma, Sóror Miranda não podia. E pensou que talvez houvesse nela, também, uma certa confusão lógica - o que talvez se devesse ao uso imponderado dos advérbios.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Talvez houvesse que esquecer,
como quem não quer a coisa, o conflito que levara à decisão, e ater-se à
expressão mais directa dessa escolha. A vida, escolhera a vida. Deixando por
definir se nela se incluía ou não "o livro". Era, portanto, o mesmo
que dizer "por agora escolho a begónia, mais tarde verei se consigo
encarar o livro". Eis a simplificação de todos os problemas. Quanta
lucidez.
Sóror Miranda foi buscar o
regador.
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