Sóror Miranda pôs-se a tentar compreender
o aparelho psíquico. Decompôs-se esquematicamente em três dimensões: colocou
duas em conflito e fez da outra o palco dessa guerra, uma síntese dinâmica. O
resultado foi catastrófico e não apresentava qualquer tipo de relação com a sua
forma efectiva, real. Eu não sou um palco de guerra, disse (levemente ultrajada).
Pôs inclusivamente um colar ao pescoço e alisou com a escova a suave ondulação
do cabelo. Mas, apesar deste gesto, ficou a
olhar para dentro (com o “olho da mente”). E percebeu que o problema não estava
no conflito, porque não o havia, mas na total falta de comunicação entre uma e
outra. Transpostas para o palco, essas duas entidades paralelas e independentes
não eram senão duas realidades fragmentárias e incomunicantes - e tudo, no
fundo, funciona em comunicação com outra coisa: o coração é um órgão
comunicante, o cérebro também. Na verdade, todos os órgãos são comunicantes, e
decerto advirá dessa circunstância o adjectivo “orgânico”.
Oh, a facilidade de recorrer a um sistema que conduza à
compreensão do mundo (e que, iluminando, oriente também as acções)... Chegando a este impasse, houve então que proceder à desconstrução. Voltou ao início: um aparelho não é orgânico. Na verdade, é quase a sua antítese, pois, embora possuindo as mesmas funções que um organismo (as de funcionar e pôr a funcionar), é de natureza mecânica. E eu não sou uma máquina.
Já está.
Dito isto, empenhou-se na arrumação meticulosa das meias.
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