Sóror Miranda ouvia Chet Baker sempre que lhe parecia
necessário, ou pelo menos vantajoso, convencer-se de que tudo estava bem. Naquele
dia, porém, sem trompete nem uma canção rock
que espelhasse a sua graça, detinha-se em pensamentos. Terá havido um
momento em que errou: bastou uma falha na sequência dos acontecimentos, e as
peças de dominó começaram o seu atropelo. A partir desse momento, fosse ele qual fosse,
terá deixado de ter domínio – foi como se cedesse a propriedade da sua vida, digamos,
a uma roldana. Evidentemente, nunca poderia dizer que levava uma vida pacata: diria antes “a vida
leva-me”, pacata ou não pacatamente ("circularmente" seria mais ajustado).
Percebia agora isto: sentia-se eternamente como quando, na infância, recuperava
os sentidos à beira-mar, depois da revolta das ondas. Os olhos turvos do sal e
o nariz inundado: era esse, talqualmente, o seu sentimento existencial.
Era um problema, portanto.
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